Depressão não é frescura:

a neurobiologia de um transtorno real

Depressão não é frescura: a neurobiologia de um transtorno real

 

Você já ouviu alguém dizer que depressão é “frescura” ou “falta do que fazer”?

Então deixa eu esclarecer um pouco mais sobre este transtorno que afeta milhões de pessoas no mundo todo e que, infelizmente, ainda é alvo de muito preconceito e desinformação.

A depressão é um transtorno psiquiátrico real, com bases neurobiológicas comprovadas cientificamente, e não uma simples tristeza passageira ou fraqueza de caráter.

O que acontece no cérebro de quem tem depressão

 

O cérebro de uma pessoa com depressão funciona de forma diferente. Não é apenas uma questão de “pensar positivo” ou “se esforçar mais”. Existem alterações bioquímicas importantes que afetam o funcionamento cerebral.

Na depressão, observamos desequilíbrios em neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina – substâncias responsáveis pela comunicação entre os neurônios e pela regulação do humor, prazer, motivação e energia.

Além disso, estudos de neuroimagem mostram alterações em regiões cerebrais específicas, como o hipocampo (relacionado à memória), o córtex pré-frontal (responsável pelo planejamento e tomada de decisões) e a amígdala (envolvida nas respostas emocionais).

Estas alterações não são “invisíveis” nem “imaginárias” – são tão reais quanto as alterações que ocorrem em qualquer outra doença física.

Sintomas que vão muito além da tristeza

 

A depressão não é apenas sentir-se triste. É um conjunto complexo de sintomas que afetam o funcionamento diário da pessoa:

  • Perda de interesse ou prazer em atividades antes prazerosas
  • Alterações no apetite e no peso
  • Distúrbios do sono (insônia ou excesso de sono)
  • Fadiga persistente e perda de energia
  • Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva
  • Dificuldade de concentração e de tomar decisões
  • Pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida

Por isso, quando alguém diz que está com depressão, não estamos falando de uma simples tristeza que passa com um passeio no shopping ou uma festa com amigos. Estamos falando de um transtorno que compromete significativamente a qualidade de vida.

Fatores genéticos e ambientais

 

A depressão tem uma base genética importante. Pessoas com histórico familiar deste transtorno têm maior predisposição a desenvolvê-lo. No entanto, os genes não determinam tudo.

Experiências de vida traumáticas, estresse crônico, perdas significativas e outros fatores ambientais interagem com a predisposição genética, podendo desencadear o transtorno. Esta interação entre genes e ambiente é muito complexa e singular para cada pessoa.

Por isso, comparações do tipo “fulano passou por coisas piores e não ficou deprimido” são inadequadas e demonstram desconhecimento sobre como os transtornos mentais se desenvolvem.

O impacto real na sociedade

 

A organização mundial de saúde prevê que em 2030 a depressão será a principal causa de incapacidade no mundo, superando doenças cardiovasculares e câncer em termos de impacto na qualidade de vida e produtividade.

Já hoje, a depressão é uma das principais causas de afastamento do trabalho e está associada a um alto risco de suicídio. Não estamos falando, portanto, de um problema trivial, mas de uma questão séria de saúde pública.

Tratamento eficaz existe

 

Uma boa notícia é que a depressão tem tratamento eficaz. A abordagem mais recomendada combina medicação antidepressiva com psicoterapia.

Os antidepressivos modernos atuam justamente nos sistemas de neurotransmissores afetados, ajudando a restaurar o equilíbrio bioquímico cerebral. Existem diversos tipos, e o psiquiatra é o médico capacitado para avaliar qual o mais adequado para cada caso.

É importante destacar que os antidepressivos não são “muletas químicas” nem causam dependência. São medicamentos que tratam uma condição neurobiológica real, assim como a insulina trata o diabetes.

A importância do tratamento contínuo

 

Por favor, não interrompa a medicação de forma repentina sem a orientação do seu psiquiatra mesmo que já esteja se sentindo muito bem, isso pode representar um grave risco à sua saúde.

A depressão é frequentemente uma condição crônica, com períodos de melhora e recaídas. Muitas pessoas interrompem o tratamento quando se sentem melhor, o que aumenta significativamente o risco de recaída, muitas vezes com sintomas mais graves do que no primeiro episódio.

O tempo de tratamento varia para cada pessoa e deve ser definido pelo psiquiatra, que avaliará cuidadosamente quando e como fazer a retirada gradual da medicação.

Para além dos medicamentos

 

Sabemos hoje em dia que, além da medicação e psicoterapia, outros fatores contribuem para a recuperação e prevenção da depressão:

  • Atividade física regular
  • Alimentação equilibrada
  • Técnicas de relaxamento e meditação
  • Manutenção de uma rotina de sono adequada
  • Suporte social e familiar

Estes elementos não substituem o tratamento médico, mas são importantes aliados que, junto com a medicação e psicoterapia, potencializam os resultados do tratamento.

Não ignore os sinais

 

Se você ou alguém próximo apresenta sintomas de depressão por mais de duas semanas, é fundamental buscar ajuda profissional. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem prevenir o agravamento da condição e reduzir significativamente o sofrimento.

E lembre-se: buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem e autocuidado.

Por fim, gostaria de pedir a sua ajuda para combater o estigma e a desinformação sobre a depressão. Compartilhe informações baseadas em evidências científicas e acolha com empatia quem está passando por este sofrimento.

Caso tenha alguma dúvida sobre depressão ou outros transtornos mentais, não hesite em deixar nos comentários abaixo.

Obrigada pela atenção,

Dra. Lara Sampaio

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